A exposição Memórias da Nossa Escola, no Lugar da Terra, já está aberta ao público.

Situada no Lugar da Terra, no Zambujal, Memórias da Nossa Escola é uma exposição/recriação que retrata uma sala de aula no tempo do Estado Novo – anos 30/70 do século XX com o objetivo de preservar a memória para as gerações futuras.

Já não vinha ao quadro há mais de 60 anos e hoje entrei sem pedir licença. Mas no meu tempo, nem eu nem nenhum colega entrava na sala de aula sem pedir autorização para entrar.

Foi com estas palavras que Odete Moleta, de 73 anos, falou abertamente sobre como foi a sua vida na escola e fora dela. Tempos difíceis, de algumas reguadas mas também de muitas brincadeiras, de solidariedade e de muito respeito pelo professor.

É este reviver e transmitir de memórias que queremos criar neste museu, nesta sala de uma escola primária de outros tempos que era muito diferente da de hoje, refere Maria Manuel Gomes, presidente da Junta de Freguesia do Castelo, na inauguração da exposição Memórias da Nossa Escola, que recria quase que fielmente uma sala de aula no tempo do Estado Novo – anos 30 / 70 do século XX, e que contou com a presença dos presidentes da Câmara e Assembleia Municipal de Sesimbra, representantes da comunidade educativa e de muitos munícipes, alguns crianças durante o regime político de Salazar.

Houve várias recordações, dos caminhos até à escola, dos atrasos por causa das brincadeiras, da sopa aquecida numa lamparina, dos castigos, das relações com o professores e com os colegas, dos métodos de ensino ou do ambiente escolar.

Íamos a pé de casa para a escola e da escola para casa, não eram permitidos atrasos, e também não podíamos entrar na sala de aula sem ter vestida a bata branca. A aula começava com uma Avé Maria e terminava com o Pai Nosso, contou Gisela Marques, acrescentando que rezar era obrigatório assim como todas as quartas-feiras era o dia da revista. Eram observadas as unhas, não podiam estar sujas, analisados os cabelos, que não podiam ter piolhos, e depois cantávamos o hino nacional.

Se alguém se enganasse ou não entoasse a canção nacional como lhe era exigido era punido com a temida palmatória, conhecida como a “menina dos cinco olhos”, com reguadas, ou com as famosas orelhas de burro.

Mas nem tudo era mau, também havia coisas boas, realçou ainda Gisela Marques, antiga aluna daquela escola, que falou da solidariedade dos professores Aurélia e Amável Andrade de Sousa. Os meus livros, roupas e sapatos eram doados por estes jovens professores. Vivia-se numa época muito difícil, não havia às vezes dinheiro para comer quanto mais para material escolar, refere.

Valores e sentimentos de partilha que foram passados por este casal de Professores às suas filhas, que conscientes da dedicação e da paixão do pai à educação durante toda a sua vida, decidiram ceder o seu espólio literário e material à Junta de Freguesia como garantia da sua preservação, apreciação e estudo e permitindo assim a realização desta exposição.

O nosso pai adorava o ensino e sempre nos ensinou os valores da honestidade e da humildade e é um orgulho muito grande estar aqui nesta recriação. Agradeço muito à Junta de Freguesia por recordar o homem honesto, que sempre foi, dedicado ao ensino e à educação; afirmou Ana Maria, a mais velha de três irmãs, nesta cerimónia, após a assinatura do protocolo de cedência de todo o espólio do “Professor Amável”, como era conhecido.

Também Odete Graça, presidente da Assembleia Municipal de Sesimbra, recordou o professor como um homem de princípios e de trabalho: Tinha uma dedicação extrema à educação e prova disso são as materiais, objetos e documentos aqui expostos nesta sala de aula, que hoje são verdadeiros documentos históricos e que agora são património da comunidade.

Esta exposição conta, para além dos registos escritos e fotográficos, com carteiras de madeira da época com os bancos pegados, um crucifixo, um quadro negro, um Mapa de Portugal, um mapa do Corpo Humano, relógio de parede, secretária de professor(a), cadeira de professor(a), armários para guardar os materiais, livros, armário métrico, ábaco – antigo instrumento de cálculo, ponteiro, canetas de aparo, tinteiros, réguas e palmatórias, lousa e lápis de pedra, bata dos alunos, saca de serapilheira entre outras objetos usados e utilizados numa antiga sala de aula do tempo que esta recria.

Situada no Lugar da Terra - um museu de memórias rurais, de profissões e saberes que moldaram a aldeia do Zambujal e a freguesia do Castelo nos últimos séculos – a exposição Memórias da Nossa Escola é para Francisco Jesus, presidente da Câmara Municipal de Sesimbra, um espaço de memórias vivas:

É delicioso estar aqui a ouvir estas histórias e vivências, não pelo período social e económico, porque não podemos esquecer que esta era uma sala de aula do Estado Novo, mas sim pela partilha de memórias para que as gerações futuras possam perceber como funcionavam as escolas com todas as dificuldades e exigências da época que nos fazem também entender as caraterísticas deste concelho na altura.

Mas tal como Odete Moleta, também o autarca ia a pé para a escola; No meu tempo só não usava farda, mas brincava num terreno de terra batida onde existia um poço no meio e isso hoje era impensável no espaço de recreio de uma escola. Mas com isto quero dizer que é um privilégio estar nesta sala de aula que foi criada neste edifício da freguesia, que tem aqui a sua génese e a sua identidade. Francisco Jesus reforçou ainda que só ao reviver o passado podemos construir melhor o futuro.

No final, e após o descerramento da placa, a presidente da Junta de Freguesia do Castelo agradeceu a todos os presentes e a todos os que direta e indiretamente contribuíram para a construção da exposição Memórias da Nossa Escola.

Obrigada a todos os que partilharam as suas memórias e vivências. Queremos que este espaço seja de todos e para todos, por isso este projeto não termina com esta inauguração pois acredito que muitos outros contributos vão chegar e a nossa recolha estará sempre em permanente construção.

 A cerimónia terminou com um moscatel de honra e a atuação da banda de formandos do CRP da  Cercizimbra, que orientados pela professora Elizabete Lemos, interpretaram alguns temas da música portuguesa.

A exposição Memórias da Nossa Escola está aberta ao público no horário de funcionamento do Lugar da Terra; de 3ª a sábado, das 10h00 às 13h00 e das 14h00 às  18h00.